Autismo - O Processamento Sensorial

O Transtorno do Processamento Sensorial consta no manual psiquiátrico DSM-5 como um distúrbio neurológico independente. No entanto, frequentemente é identificado nas pessoas com um diagnóstico dentro do Espectro do Autismo. Apesar de ser um tema bastante explorado, recentemente, o Processamento Sensorial (PS) ainda não é de todo conhecido.

A causa do distúrbio é de ordem genética. Os estímulos do meio ambiente são rápida e intensamente captados pelo cérebro da pessoa sensível a essa invasão sensorial. Nesse processo, muitas sensações são percebidas de uma vez, em (mínimos) detalhes, originando a hipersensibilidade dos sentidos. O estresse é fator agravante; quanto mais nervosos, menos aptos a tolerarem o input de estímulos ao mesmo tempo.

↘ “Fique quieto!”, “Pare de roer as unhas!” “Larga isso!” ou “Pare de se balançar na cadeira!” são algumas das frases comuns que pais e professores usam ao lidar com crianças (autistas) com um distúrbio do processamento sensorial.

➡ Quantos sentidos tem o Homem?

Numa recente palestra em Utrecht, Holanda, o pedagogo belga Steven Degrieck, especialista no tema, perguntou à plateia: “ Quantos sentidos tem o Homem?… Cinco?…” ao que grande parte dos participantes levantou suas mãos. Quando perguntou: “Seis?…”, algumas mãos levantadas se abaixaram. Ele seguiu: “Sete?…”, ao que mais mãos se abaixaram. Oito?…Nove?… Dez?… Já não se via mãos levantadas. “São dez, minha gente”, afirmou Steven, divertindo-se com os olhares de surpresa.

↘ O pedagogo está correto. Dez sentidos tem o ser humano.

Os cinco sentidos popularmente conhecidos – visão, audição, tato, olfato e paladar

↘ O vestibular – equilíbrio (cuja origem está na audição).

O da propriocepção (a postura; a contração muscular, fazer atividades sem olhar para o que se faz; sentir o peso dos objetos; ter sensação de “controle” sobre o próprio corpo
O da interocepção (sensações interiores de fome, sede, sono, bexiga cheia, batimentos cardíacos e cansaço).
O da nocicepção (sensação de dor)
O de termo-cepção (registro de temperatura – frio, quente etc.).
Os cinco últimos sentidos são tão presentes no ser humano, quanto desconhecidos, pois quase tudo o que fazemos é natural para quem não tem um transtorno no processamento sensorial.

➡ Mono Funcionamento

O mono funcionamento no autismo é a experiência de um sentido de cada vez. A maioria das pessoas com desenvolvimento neurotípico é capaz de andar sem que para isso tenha que olhar para seus pés; ela sabe que está andando (sentido proprioceptor). Ao mesmo tempo podem estar falando ao celular e acenando para um amigo que acaba de entrar no local onde ela está. São ações automáticas, que não perturbam seu funcionamento.

Um grande grupo de autistas, porém, pode ser perturbado pelos estímulos que chegam até eles através dos dez sentidos.

Como exemplo, a falta de contato visual de muitos autistas. Alguns deles evitam o olhar nos olhos para poderem ouvir melhor. Outro exemplo seria o do autista que não fala enquanto faz suas refeições; ele não gosta de falar enquanto come; está degustando (paladar) primeiro.

É importante que pais e terapeutas evitem oferecer muitos estímulos à pessoa autista sensorialmente sensível. Sendo assim, é melhor que os deixem experimentar um de cada vez. O mais eficiente é apresentar o estímulo visual antes da verbalização de uma ação que é esperada do autista. Exemplo: o professor quer que o aluno autista deixe de fazer a tarefa e vá ao refeitório. Primeiramente o professor deve mostrar-lhe o pictograma do refeitório, aguardar alguns segundos e só depois falar em voz alta que o aluno deve ir para ao refeitório. A tarefa terá mais chances de ser compreendida imediatamente quando segmentada (primeiro mostrar, depois falar). São ações simples, que podem facilitar o bem-estar de muitos autistas e também das pessoas incumbidas de se comunicarem com eles.

➡ Hipersensibilidade sensorial: Fight, Flight or Freeze

Quanto à hipersensibilidade sensorial do autismo, os americanos usam o termo Fight, Flight e Freeze para designar as ações típicas de uma pessoa desorientada. Ela luta (fight), foge (flight) ou congela (freeze).

Muitos autistas irão reconhecer este problema. Quando sobrecarregados de estímulos podem escolher (sem dar-se conta) uma das três estratégias. Aquele que “luta”, seria o autista que reage gritando, jogando coisas ao chão, (se) agredindo etc. O autista que “foge”, o faz literalmente, saindo do local que o perturba intensamente – o aluno que se esconde no banheiro do colégio, que foge da escola, que se recusa a ir à escola etc. O terceiro é o ato de “congelar”: a criança aparenta não ser perturbada pelo que acontece a sua volta para mais tarde “explodir” em casa; ou o contrário: em casa ela demonstra estar calma e na escola não mais consegue se controlar, apresentando um comportamento inapropriado.

➡ Hiposensibilidade sensorial – a busca constante por estímulos

A hiposensibilidade sensorial do autista, ao contrário da hipersensibilidade, é observada quando a criança parece buscar os estímulos pulando, olhando direto na luz, ou girando objetos rotativos incessantemente. São as aqueles que não conseguem “sentar direito” numa cadeira; sentam meio deitados, meio sentados (hipossensibilidade do sentido propriocepção.) A criança não foge da sensação; ela a busca incessantemente. No caso da hipossensibilidade, as crianças podem apresentar um comportamento inconveniente ou até perigoso. Observamos a hipossensibilidade do sentido proprioceptor quando as crianças:

Sentam-se meio deitadas
Apoiam a cabeça nas mãos
Têm dificuldade em subir escadas
Sentem-se extremamente cansadas ao se exercitarem levemente
Apoiam-se em outras pessoas ou em móveis
Andam de forma diferente da maioria
Vestem-se inapropriadamente (roupa do avesso, suja etc.)
Batem com os calcanhares no chão ao andar
Gostam de morder; mastigar; roer unhas
Gostam dos cintos bem apertados
Gostam de ser “apertados” (abraços apertados, sentir pressão no corpo)
Têm pouca ou muita força física
Pessoas “brutas” ou “desajeitadas”
Exemplos de hipossensibilidade no sentido interoceptor:

Não perceber a exaustão (fazer algo até cair exausto)
Não sentir sede
Não sentir fome
Comer demais ou beber demais
Ainda usar fralda apesar da idade.
“Ele não me olha quando eu falo”;

“Durante o almoço, ele não fica olhando pro nada”;

“Quando ele olha para o caderno, ele não me ouve.”

➡ A compreensão do distúrbio do processamento sensorial pelos pais e professores, pode facilitar muito a vida das crianças com autismo. A consciência do problema é meio caminho andado. Uma vez consciente, o cuidador pode observar melhor a criança, procurando por indícios tal que aprenda como conduzi-los:

Diminuindo a quantidade de estímulos
Diminuindo o estresse da criança
Antecipando situações de muitos estímulos e/ou estresse
Controlando as situações onde o processamento sensorial pode ser afetado.
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↘ Ofereça alternativas mas não obrigue a criança a aceitá-las, para evitar aversão ou a que a criança faça uma associação negativa à pessoa que o obriga. Antecipe os problemas que possam aparecer, tendo mais opções a oferecer. Exemplo: um jovem autista com hipersensibilidade visual – ofereça óculos (mesmo que ambiente fechado). Um aluno com sensibilidade auditiva – ofereça headphones.

↘ O prognóstico, baseado no mundo acelerado em que vivemos, não é dos melhores. O cérebro humano está fazendo hora extra para adaptar-se à pressa do mundo ocidental.

A boa notícia é que com a Terapia de Integração Sensorial é possível melhorar muito a hiper/hipossensibilidade das pessoas com crianças com um problema de ordem sensorial, como é frequente no autismo. Este tipo de terapia vai oferecer exercícios específicos tratando a desordem individualmente, de acordo com o deficit sensorial de cada paciente.

✏ *Fatima de Kwant é jornalista, palestrante, escritora de textos sobre autismo, especialista em autismo – desenvolvimento e comunicação. Criadora do Projeto Internacional Autimates, um projeto institucional vitalício, cujo propósito é promover a conscientização do autismo, informando a população mundial sobre todos os temas relacionados ao Espectro do Autismo. Fátima reside na Holanda desde 1985 e é mãe de um adulto autista que saiu do autismo severo e tornou-se independente.

O Spinner e o Autista

  SPINNER É BOM PARA CRIANÇAS COM AUTISMO?

Em todo lugar que você vai, é comum encontrar uma criança brincando com o spinner, aquele objeto com um eixo central que gira por muito tempo enquanto se segura no centro dele. Por isso, muitas mães e pais vieram me perguntar se este tipo de brinquedo pode ajudar no desenvolvimento de crianças com autismo.

Fui buscar a resposta com a psicóloga e professora Larissa Lacerda, que realiza trabalhos com crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) há 5 anos, no estado do Maranhão.

Formada pela Universidade Federal do Maranhão e pós-graduada em análise de comportamento aplicada à intervenção no atraso do desenvolvimento, Larissa nos contou que sim, o spinner já é utilizado como um recurso auxiliar em prol do desenvolvimento em algumas atividades para crianças com autismo.

O trabalho da psicóloga é baseado em intervenções fundamentadas na análise de comportamento. Sendo assim, é feita uma avaliação inicial da criança, para verificar quais as habilidades ela precisa desenvolver (como linguagem, socialização, lazer etc.) e o que, de fato, está atrapalhando o seu aprendizado.

É nesse trabalho que entra o spinner, como um elemento capaz de gerar um efeito “tranquilizante” para as crianças com TEA.

  Como o spinner é utilizado nas atividades?

Na prática, foram encontradas duas utilidades para o spinner nas intervenções com crianças com autismo, de acordo com a psicóloga. A primeira aplicação foi utilizar o brinquedo enquanto a criança espera por algo: como por exemplo no intervalo entre duas atividades, em filas ou no trajeto do carro. São situações que um indivíduo com TEA poderia se sentir incomodado e impaciente e, de certa forma, esse tempo é reduzido quando ele está brincando com o spinner.

No segundo caso, o spinner ou fidget spinner, como também é conhecido, ajuda na socialização, ou seja, na aproximação dela com os colegas, já que muitas crianças se divertem com este tipo brinquedo. “O spinner tornou-se um interesse em comum entre as crianças e, assim, pode-se trocar, interagir e conversar com mais facilidade”, esclarece Larissa Lacerda.

↘  Cuidados com o uso do spinner

O comportamento de crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista é bastante específico para cada caso e, assim como os demais brinquedos, deve haver uma limitação no tempo destinado ao uso do spinner – para que este não concorra com outras atividades importantes. “É sempre importante tomar cuidado com excessos, independentemente do tipo de objeto ou atividade”, recomenda a psicóloga.

E quando falamos sobre as crianças com autismo, a tentativa de inserir novas atividades na rotina é sempre bem-vinda. Porém, é importante salientar que se deve respeitar os interesses individuais, já que algumas crianças podem simplesmente não gostar do spinner ou preferir outras práticas, como brinquedos de montar ou jogos eletrônicos.

Por isso, o ideal é procurar sempre atividades que tragam mais conforto. Logo, o spinner não deve ser entendido como a solução definitiva para qualquer problema relacionado ao estresse ou ansiedade e, sim, como uma ferramenta dentro de um conjunto de estratégias para ajudar no ensino de determinada habilidade.

Os pais também devem prestar atenção às habilidades da criança com o spinner, já que às vezes ela pode ainda não ter a coordenação motora necessária para manusear ou segurar o objeto de maneira adequada, independente do grau de autismo que possui. Neste caso, a premissa básica é ir observando quais são os brinquedos mais adequados em cada faixa etária e, em caso de dúvidas, consultar a equipe profissional.

Com tudo isso, podemos dizer que o spinner e outros tipos de brinquedo podem ser buscados pelos próprios pais como uma oportunidade de maior interação entre eles e seus filhos. Mais importante que o próprio objeto em si, o que vale é a organização de uma rotina que mescle espaços de interação entre pais e filhos, horários para atividades da escola, terapias, esportes e demais interesses, sem que esses prejudiquem a criança em seu processo de crescimento.

Fonte: Larissa Lacerda - Psicóloga